Uma dor que não passa, um cansaço diferente do habitual ou uma febre sem causa aparente podem parecer sintomas comuns na infância. Na maioria das vezes, de fato, não estão relacionados ao câncer. Mas quando essas manifestações persistem, pioram ou não respondem aos tratamentos habituais, é importante investigar.
Esse é um dos principais desafios do câncer infantojuvenil: os primeiros sinais podem se confundir com doenças frequentes nessa fase da vida. Neste Setembro Dourado, mês dedicado à conscientização sobre o câncer infantojuvenil, conversamos com o coordenador do setor de Oncologia do Hospital Estadual da Criança (HEC), Maurício Meira, sobre os principais tipos de câncer que acometem crianças e adolescentes, os sinais que merecem atenção, os desafios para o diagnóstico e os avanços no tratamento.
Quais são os principais tipos de câncer que acometem crianças e adolescentes? Existe alguma faixa etária em que determinados tumores são mais frequentes?
O câncer infantojuvenil compreende um grupo de doenças raras. Porém, apesar desse fato, tal grupo responde pela primeira causa de morte entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos.
Os principais tipos de câncer pediátrico são as leucemias e os tumores do sistema nervoso central, existindo importante correlação entre o tipo de câncer e a faixa etária. Esses dois tipos de câncer perfazem cerca de 50% das doenças oncológicas pediátricas. Entre 0 e 4 anos de idade, os principais tipos de câncer são a Leucemia Linfóide Aguda, o Neuroblastoma, o Tumor de Wilms (tumor renal) e o Retinoblastoma (tumor ocular). Na faixa etária entre 5 e 9 anos, temos as leucemias, os linfomas e os tumores do sistema nervoso central. Na adolescência (entre 10 e 19 anos), vemos a prevalência dos linfomas, tumores ósseos e tumores germinativos.
Quais sinais e sintomas podem servir de alerta para que pais e responsáveis procurem avaliação médica? Como diferenciar sintomas que podem fazer parte de doenças comuns da infância daqueles que merecem uma investigação mais cuidadosa?
O maior problema dos sinais e sintomas que acompanham as doenças oncológicas é que estes podem ser encontrados em doenças comuns da infância. Um detalhe importante está na duração e progressão dos sintomas, independentemente do tratamento com medicações sintomáticas. As doenças benignas habituais da infância geralmente têm curso autolimitado e breve, ou mesmo respondem ao tratamento utilizado, como observamos com o tratamento antibiótico nas infecções bacterianas.
Sinais e sintomas que podem surgir com as doenças oncológicas são:
- Palidez inexplicável e cansaço constante, estando a criança sempre sem energia para brincar.
- Manchas roxas (hematomas) que surgem sem um trauma proporcional. Podem ser observadas também as petéquias, que são pontos vermelhos na pele.
- Febre prolongada e recorrente, sem uma causa identificável e sem sinais de doenças comuns (sintomas gripais, por exemplo).
- Dores nas pernas ou nos braços, podendo envolver articulações, que não melhorem com tratamento sintomático padrão, evoluindo com piora progressiva.
- Dores de cabeça frequentes, especialmente quando têm predominância matutina (ao acordar) e são acompanhadas de vômitos.
- Surgimento de linfonodos aumentados (ínguas), que geralmente se apresentam endurecidos, indolores e não param de crescer.
- Aumento do volume da barriga, que pode ser acompanhado de massas palpáveis no abdômen.
- Mancha esbranquiçada em um olho ou em ambos os olhos, geralmente captada em fotografias (reflexo do olho de gato), ou mesmo olhos saltados e proeminentes.
- Perda de peso repentina e sem explicação, geralmente maior de 10% do peso da criança.
O câncer infantojuvenil é muito diferente do câncer em adultos? O que muda, principalmente, em relação à prevenção e ao diagnóstico?
O câncer infantojuvenil é bastante diferente do câncer em adultos. As diferenças ocorrem tanto na origem biológica, frequência, comportamento e resposta ao tratamento.
Lembrando que o câncer pediátrico é uma doença rara, o câncer em adultos é uma doença altamente prevalente. O câncer no adulto é muito associado ao envelhecimento celular e a fatores ambientais, enquanto o câncer infantil é geralmente uma doença relacionada ao desenvolvimento, originada de alterações genéticas que ocorrem durante a formação dos tecidos. No adulto, a maioria dos tumores são carcinomas (afetam os tecidos que revestem os órgãos, como pulmão, mama e cólon). Na infância, predominam as leucemias, linfomas e tumores embrionários/sarcomas (afetam o sangue, o sistema de defesa e tecidos de sustentação, como ossos e músculos).
A agressividade e a velocidade de crescimento das neoplasias malignas pediátricas geralmente são muito maiores que nos casos de câncer em adultos, porém, uma vez que o diagnóstico seja realizado de maneira precoce, habitualmente os cânceres pediátricos exibem uma resposta muito satisfatória ao tratamento, com taxas de cura que chegam próximas a 80%.
Por que o diagnóstico precoce é tão importante no câncer infantojuvenil?
Uma vez que as células tumorais nas crianças apresentam uma velocidade de divisão muito alta, há uma resposta mais efetiva à quimioterapia clássica, que ataca justamente as células em multiplicação. A detecção precoce também possibilita a realização de cirurgias menores e mais efetivas, com menor risco de sequelas. Tratamentos como a radioterapia, que também é indicada para o tratamento das neoplasias pediátricas, podem ter doses e campos reduzidos quando se trata uma doença localizada.
Em casos de grande carga tumoral ou mesmo disseminação à distância (metástases), há uma redução importante da chance de cura e aumento de sequelas relacionadas a todos os tipos de tratamento, que, para poder ter alguma efetividade, necessitam ser muito mais agressivos.
Como não há um meio de prevenção do câncer pediátrico, o diagnóstico precoce se torna a maior arma no combate a essas doenças.
O que pode dificultar ou atrasar o diagnóstico de um câncer em crianças e adolescentes?
Temos diversos fatores que comumente atrasam o diagnóstico do câncer em crianças e adolescentes.
A similaridade entre os sinais e sintomas do câncer e de doenças comuns da infância pode atrasar o diagnóstico, uma vez que os agentes de saúde e médicos da atenção primária não reconheçam a possibilidade de neoplasia. Não são infrequentes diagnósticos equivocados, mais relacionados a doenças mais prevalentes e habituais da infância, acontecendo, em algumas ocasiões, diversas consultas e avaliações antes que se faça a suspeita de doença oncológica. Existe, assim, importante necessidade de campanhas de esclarecimento do câncer infantojuvenil a profissionais de saúde em todos os âmbitos, focando na importância do diagnóstico precoce.
A própria velocidade de crescimento das neoplasias é um fator que diminui bastante a janela de tempo entre a suspeita de câncer e o diagnóstico. Aliado a esse fato, alguns tumores surgem em localizações (por exemplo, no abdômen) que podem seguir ocultas até que tais tumores tenham um tamanho que promova algum sintoma.
A falta de exames de rastreamento ou medidas para prevenção do câncer pediátrico deixa esse grupo de doenças dependendo puramente da suspeita clínica.
A própria estrutura de saúde em nosso país, por vezes, não colabora com o diagnóstico precoce. Além da dificuldade diagnóstica já relatada, os pacientes enfrentam bastante dificuldade para alcançarem os centros de Oncologia Pediátrica. Pelo tamanho do país e o número de centros especializados, a distribuição geográfica destes pode fazer com que os pacientes passem por verdadeiras odisseias para conseguir não só o acesso aos serviços, assim como para manter o tratamento. É válido lembrar também que há demasiada diferença entre os centros de tratamento no país, tendo serviços de excelência em estados mais desenvolvidos e serviços bastante deficitários em locais mais pobres. Sem considerar a capacidade de tratamento, muitos serviços especializados enfrentam dificuldade para o diagnóstico, com a ausência de um arsenal diagnóstico efetivo.
Existe algum exame específico que possa detectar precocemente o câncer em uma criança que não apresenta sintomas?
Não há método diagnóstico específico para diagnosticar o câncer de forma extremamente precoce na pediatria.
Uma exceção relativa para esta situação são as síndromes genéticas que estão associadas a casos de câncer infantojuvenil, nas quais um acompanhamento médico mais rigoroso pode antecipar um diagnóstico oncológico.
Quando há suspeita, como geralmente acontece a investigação até chegar ao diagnóstico?
Assim que é feita a suspeita de uma neoplasia, são realizados exames laboratoriais e de imagem. A partir destes exames, são realizadas biópsias dos tumores ou análise da medula óssea nos casos das leucemias. Após os resultados, o ideal é iniciar o tratamento o mais rápido possível.
Como o tratamento do câncer infantojuvenil é definido? Ele varia de acordo com o tipo e estágio da doença?
O tratamento oncológico pediátrico é altamente individualizado e definido por uma equipe multiprofissional (oncologistas pediátricos, cirurgiões, radioterapeutas, patologistas e enfermeiros), com base em protocolos científicos nacionais e internacionais.
Cada tipo de câncer tem seu protocolo de tratamento específico, que ainda varia de acordo com o estágio da doença, lembrando que, quanto mais avançado o câncer, mais agressivo o tratamento.
Os principais tipos de tratamento são a quimioterapia, cirurgia e radioterapia. Atualmente, a imunoterapia e terapias-alvo vêm se tornando realidade até mesmo na rede SUS. Tais tratamentos atacam proteínas específicas das células cancerígenas ou ¨treinam¨ o sistema imunológico da criança para combater o tumor. Doenças como a leucemia linfóide aguda e neuroblastoma já têm esse tipo de terapia disponível.
Além do tratamento da doença, quais cuidados são importantes para preservar a qualidade de vida da criança durante esse período?
Pensando na preservação da qualidade de vida da criança ou adolescente durante o tratamento oncológico, é importante adotar uma assistência integral, focada no bem-estar físico, emocional e social. Apesar de todas as dificuldades que possam permear o período, a criança precisa continuar a ser criança.
A criança precisa entender o que está acontecendo em uma linguagem adequada para a sua idade. O uso de brinquedos e outros recursos terapêuticos são importantes neste momento. O acompanhamento psicológico da criança e dos familiares é de extrema importância, além de acolhimento social, para que haja estrutura na família para manutenção do tratamento.
O acompanhamento nutricional é uma das pedras angulares do tratamento. Muitas crianças já chegam aos serviços de saúde com desnutrição. Além desse fato, o próprio tratamento pode causar alteração no paladar, náuseas e vômitos, além de lesões na cavidade oral (mucosite), que dificultam imensamente a nutrição adequada.
O tratamento dos sintomas, como dores, náuseas e vômitos, é bastante válido para manter a criança com a melhor qualidade de vida possível. A manutenção do acompanhamento escolar é estimulada, embora possa variar de caso a caso. Hoje, a interação entre professores em hospitais e as escolas está tornando o acompanhamento escolar possível, até mesmo quando não há condições de a criança comparecer presencialmente à escola.
O repouso prolongado e alguns medicamentos podem causar fraqueza muscular, indisposição ou dor. A fisioterapia mantém a mobilidade e ajuda a criança a manter a independência para andar e brincar. A terapia ocupacional também é de grande valor nesse cenário.
Qual mensagem você gostaria de deixar para pais e responsáveis neste Setembro Dourado?
O acompanhamento médico das crianças e adolescentes deve ser sempre realizado, mesmo quando em saúde plena. No caso de surgimento de sintomas clínicos duradouros e sem definição, um médico sempre deve ser consultado. Por maior que seja o impacto de um diagnóstico oncológico, na maioria dos casos em que o câncer é descoberto precocemente, as chances de cura são altas, além de permitir que, após a cura, o paciente tenha uma vida produtiva e absolutamente normal.
O HEC é uma unidade materno-infantil de média e alta complexidade, 100% SUS, pertencente à Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e gerida pela Liga Álvaro Bahia, onde o cuidado com a infância é prioridade todos os dias.

